Toda religião tem a sua própria posição e ideal de salvação

ATILLA KUŞ |

Diferentes entendimentos acarretam em intolerância e incitação que podem resultar nos conflitos ’em nome das religiões’

Desde o período em que comecei a escrever o blog Diálogos da Fé, tentei focalizar os meus artigos em torno de reflexões quase filosóficas. Deste modo, procurei não restringir-me apenas aos assuntos relevantes à religião que sigo. Neste artigo, iremos falar sobre qual é a religião que salva. Aliás, este texto é apenas uma consequência de um comentário feito nas redes sociais, a saber: “somente Jesus salva, o resto é religião”.

Como um cientista da religião, não cabe a mim definir que esta ou aquela religião salva. Isto seria uma violação da minha identidade acadêmica e eu acabaria ferindo os critérios da área que estudo.

A questão de salvação, a princípio nas religiões monoteístas, reflete ao pensamento soteriológico de cada uma das tradições espirituais/religiosas seguidas por seres. Levando em conta que o número de religiosidades sem religião vai aumentando cada vez mais, o salvacionismo é um dos assuntos destacados. Inclusive, isso é um dos motivos do ideal de expansão nas religiões que visam-no, pois é através da divulgação da “mensagem salvadora” que o mundo poderá se salvar do inferno ou do sofrimento. Neste sentido, por exemplo, o cristianismo e o islam se veem como religiões absolutas e requerem de seus seguidores a sua expansão para que o ser humano em sua totalidade seja salvo do castigo do inferno, enquanto o budismo requer o mesmo para livrar o indivíduo do sofrimento ou para que ele chegue à iluminação.

O ideal de salvação, no campo teológico da Igreja Católica, baseou-se em três categorias que Faustino Teixeira em seu livro “A Teologia das Religiões” aborda. Estas categorias são definidas como exclusivismo, inclusivismo e pluralismo. O exclusivismo é a ideia de que não há salvação senão na Igreja, e desconsidera que outras religiões possam ter acesso a isso. No ideal inclusivista, abre-se porta para um aspecto mais amplo e se aceita que talvez as outras religiões tenham elementos salvadores, porém, ainda a Igreja é que salva. Estes dois princípios motivam o ideal expansionista e o proselitismo, na minha ideia. Já no pluralismo, é aceito que todas as religiões podem salvar.

Frank Usarski, em “O Budismo e as outras”, avalia estas três categorias no viés da Ciência da Religião esclarecendo-as com base no reconhecimento do outro. Neste aspecto, o reconhecimento ou o não-reconhecimento leva a religião a aceitar totalmente (pluralismo), aceitar parcialmente e respeitar (inclusivismo) e não aceitar os elementos do outro (exclusivismo).

Estas categorias nos acadêmicos sobre o diálogo inter-religioso ou ecumenismo geralmente são elementos para analisar a posição de uma religião perante as demais. Dentro desta perspectiva, podemos afirmar que toda religião tem a sua própria posição e ideal de salvação. Isto é, todas as religiões se veem como caminhos de salvação e podem negar totalmente as outras ou aceitar que elas também tenham algo que possa levar à salvação. As afirmações em torno disto, principalmente quando se fala de uma outra religião, é uma das formas de intolerância e incitação que podem resultar nos conflitos “em nome das religiões”, como já é de costume no mundo hoje em dia.

ATILLA KUŞ
É cientista da religião, mestrando no Programa de Estudos Pós-graduandos em Ciência da Religião na PUC, membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP, professor visitante na FFLCH-USP, professor convidado na PUC-SP e tradutor de turco, curdo e árabe.


Continue no Canal
+ Nova Consciência