Apenas uma pálida proposta

Marcelo Henrique

Prestes a completar quarenta anos de atividade no Espiritismo, a partir da teoria filosófica e vivenciando inúmeras atividades práticas, em diversos setores do chamado “movimento espírita”, volta e meia me surpreendo em reflexões íntimas e, como no presente caso, resolvo compartilhar com os verdadeiros espíritas, na definição pontual de Kardec.

Estes, como sempre se decanta ou relembra, são reconhecidos “pela sua transformação moral e pelos esforços empregados em domar as más inclinações”. O enquadramento dado por Rivail, aquele que estruturou lógica e sistematicamente todo um arcabouço ideológico que já atravessa muitas décadas, rumo ao bicentenário, não permite tergiversações. Nem rodeios.

O Espiritismo é, inicial e acima de tudo, uma proposta PESSOAL, pois que se direciona, PRIMEIRO, à transformação individual, calcada na Lei do Progresso. E, por extensão, como também declarou diversas vezes o Codificador, a obra espírita é de EDUCAÇÃO. E ninguém pode educar quem quer que seja se não esteja, antes, educado. Caso contrário, teremos apenas a retórica moralista, a exegese religiosa-igrejeira e a postura de sábios de púlpito – e não de cátedra – porquanto os professores de Espiritismo não podem ser meros teóricos, mas aqueles que são reconhecidos por suas obras – tal qual expresso pelo Homem de Nazaré.

Depois, em amplo espectro, a começar pela própria ambiência espírita – mas não se resumindo ou se adequando confortavelmente à “fala aos pares” – o Espiritismo tem de ser conhecido, entendido e praticado em plenitude. Conhecido em totalidade, não sendo possível conceber que haja um sem-número de expoentes da filosofia espírita que não tenham, sequer, lido as trinta e duas obras escritas por Rivail-Kardec. E, adiante, que estejam permanentemente estudando estas publicações, revendo apontamentos e conceitos, perpassando a relação encadeada de temas e abordagens entre duas ou mais daquelas obras consideradas fundamentais e observando inúmeras comunicações de Inteligências Desencarnadas (não, necessariamente, Superiores) e as digressões interpretativas, apontamentos e conclusões de Kardec nos fascículos mensais da edição completa da Revue Spirite.

Não, Senhoras e Senhores. Não é permitido, pelo requisito do bom senso kardeciano, desconhecer uma linha sequer que tenha sido publicada entre abril de 1857 e março de 1869, pelo professor francês, com o carimbo espírita. Caso você que esteja acompanhando este forte artigo ainda não conheça qualquer das publicações do Mestre e não as utilize no cotidiano, sempre buscando mais – agora, com mais facilidade, por ferramentas eletrônicas de busca e leitura completa, na tela de seus computadores, tablets ou celulares – você não poderá ser tido como genuinamente espírita!

Trate, portanto, de selecionar as muitas leituras que ainda há para fazer e de se afiliar a grupos sérios que não estejam em busca de “novidades” do século em curso, porquanto, em termos de espiritualidade, seus questionamentos do hoje encontrarão nas páginas escritas em meados do século XIX, pontuais respostas – que, ao contrário do que muitos espiritistas pensam – não são (nem poderiam ser) definitivas, prontas e inquestionáveis, posto que a Doutrina dos Espíritos também deveria estar em progresso, com novas evocações e novíssimas respostas dos desencarnados, a que nós, espíritas compenetrados, interessados e fiéis ao espírito do pioneiro, deveríamos selecionar com base nos critérios de lógica, racionalidade, verdade, adstrição aos princípios fundamentais e, por último, o da concordância universal.

 

Ah, eu sei! Você não conhece tais critérios. Ou se os conhece é, tão-somente, por “ouvir dizer”, já que tenho plena convicção, você jamais os aplicou em relação àquelas comunicações que são psicografadas na instituição de que você participa, nem em face daquelas “novas obras” mediúnicas, que são divulgadas todas as semanas, seja na Casa Espírita, seja pelos meios de publicidade de editoras e instituições que as publicam.

Do contrário, você apenas avalia “quem” é o médium e “que assinaturas ilustres” estão ao final da mensagem ou da capa do livro. E isto lhe basta. Se tiver, então, o “selo” de uma editora respeitável ou tenha sido recomendada pela instituição regional, estadual ou nacional, de representatividade espírita, é o suficiente.

Nos dias de hoje, então, em que muitos estão “aflitos e sobrecarregados”, para relembrar expressão do Carpinteiro de braços abertos para o aconchego da gente de sua época, somos bombardeados por mensagens novidadeiras, com pueris consolos e artefatos linguísticos calcados no sobrenatural (que não é o de Almeida, do famoso cronista, mas é o que apresenta o sobrenome do médium, do expositor ou do dirigente espírita que as veicula), as quais, verdadeiramente, estão distantes – e muito – dos critérios adotados com excelência pelo fundador do Espiritismo, e recomendados para todos os que, depois dele, pretendessem se dedicar ao verdadeiro ensino dos Espíritos (Superiores).

Devo dizer, com a franqueza habitual que me caracteriza, que o Espiritismo, não só no Brasil, como em todo o mundo em que haja algum agrupamento de espíritas ou uma instituição regular, de forma jurídica, é APENAS UMA PÁLIDA PROPOSTA.

Senão, vejamos…

Em que parte do nosso país e do mundo os Espíritas constituem a maioria dos “influencers” sociais, com iniciativas que atraem a simpatia de voluntários – de qualquer origem ideológica, cultural ou religiosa – para um trabalho de vulto, em termos de justiça social, para o atendimento de milhares ou milhões de pessoas?

Em que emissora, pública, privada, de transmissão aberta ou fechada, a Filosofia Espírita possui um programa que se apresente como alternativa às transmissões de cultos ou missas, que atraem telespectadores ou internautas, pela natureza da explicação dos elementos morais do Cristianismo (ou de outra acepção filosófico-religiosa, compatível com o Espiritismo)?

Em que assembleias político-sociais, reuniões de conselhos populares, órgãos de representação cidadã, o Espiritismo, por seus representantes, possui assento permanente ou cadeira cativa, não para a imposição da fé (que é e deve ser, sempre, pessoal e íntima), mas para o debate, com base no paradigma espírita, de questões sociais prementes e que dizem respeito ao presente e ao futuro das sociedades e da própria Humanidade?

Considerando os organismos e instituições locais e mundiais, e suas reuniões e realizações, quando é que sentam à mesa, para a construção coletiva de alternativas para os problemas humanos, os representantes espíritas assumem postura proeminente, apresentando contribuições efetivas e recebendo, por tal atitude, apoio dos que não sejam espíritas?

Quando é que teremos consciência cidadã, política e de participação para ultrapassar o discurso da pregação religiosa, seja para apontar, em futuro plausível, a Era de Regeneração Social (predita pelos Espíritos Superiores e elencada como condição espiritual futura, nas obras de Kardec)?

Quando é que teremos coragem para admitir que o ufanismo despropositado e distante da conceituação genuína da Filosofia Espírita, contido na obra mediúnica que elegeu o Brasil como protagonista mundial e que prescreveu ser, esse país, o “celeiro do mundo” ou a “pátria do Evangelho”, resultou de um devaneio pessoal da personalidade que assinou aquelas páginas, e que, passados mais de 60 anos de sua publicação, não apresenta qualquer contorno político-social ou de organização coletiva, capaz de confirmar aquela prédica?

Ou, então, para que não seja qualificado o Espiritismo apenas e tão-somente como um “plano de boas intenções” para figurar em prateleiras empoeiradas de bibliotecas, assim como o projeto que morreu na semente, onde estão os espíritas realizadores que conseguem INFLUENCIAR O PROGRESSO?

Kardec jamais pretendeu erigir um movimento ideológico-institucional centrado em si mesmo e voltado para o proselitismo dos que se dizem espíritas. Sua proposta, em absoluta consonância com as orientações dos Luminares Invisíveis, foi no sentido de recomendar que os espíritas abandonassem a timidez (dos bons) e superassem a audácia cativante (dos maus), influindo decisivamente, a partir dos ideais legitimamente espíritas, na transformação do tecido social vigente, de cada época e progressivamente.

 

O Espiritismo, como esperava Kardec, pela natureza de suas bases, seria a mola propulsora de novas sociedades, justamente pela aplicação dos elementos teóricos em ações práticas, individuais e coletivas. No que tange ao espectro individual, podem dizer alguns, há pessoas virtuosas no segmento espírita, realizando, por certo e visivelmente, aquilo que melhor possam, sendo, portanto, exemplos para os que lhe acompanhem. Pessoalmente, fazem a parte que lhes cabe, poderíamos dizer.

Mas em termos coletivos, sociais, o Espiritismo não possui qualquer destaque, inclusive pela quantidade de adeptos – cerca de três por cento da população brasileira, conforme o órgão censitário nacional – considerando, também, a expressão vigente que adjetiva o Brasil como o “maior país espírita do Mundo”. Em paralelo, tem-se a constatação de que há, de fato, muitos “simpatizantes espíritas”, que são os que apreciam muitas obras tidas como espíritas (romances em sua maioria), ou os que já leram ou folheiam, com relativa frequência, a obra kardeciana “O evangelho segundo o Espiritismo”, ou, ainda, os que aceitam, seja a reencarnação, seja a existência do Espírito, dois dos fundamentos da Doutrina Espírita, como realidade espiritual.

Por isso, a superação do atual estágio de provas e expiações para o alcance do de regeneração social deverá acontecer sem a efetiva participação dos espíritas. Porque vemos muitos seres em idade infanto-juvenil que já demonstram, por suas atitudes, um referencial moral distinto da imensa maioria dos adultos e idosos encarnados atualmente, representando Espíritos melhorados que irão conduzir a coletividade ao patamar de progresso moral que se espera e que é naturalmente consequente do presente.

Assim, o vaticínio de Kardec quanto à participação dos espíritas nas revoluções sociais, erradicando os preconceitos, superando o desrespeito aos direitos, pelas populações e legislações, e a legítima expressão da justiça social para todos – desiderato do Espiritismo – não se cumpriu, porque os ideais espiritistas não foram transplantados de pensamentos e palavras para as necessárias ações melhoradas.

Vejo, em essência, um mundo ainda muito materialista, com ênfase desmedida ao proveito pessoal, sem os sentimentos e as atitudes (esperados e desejáveis) de fraternidade e solidariedade, ainda que, notadamente, os espíritas sejam reconhecidos pelos trabalhos assistenciais (caridade). Mas é uma caridade direcionada por prosélitos, visando “consolar segundo o Espiritismo”, vinculando, muitas vezes, aquilo que se dá (roupas, alimentos, etc.) aos socialmente carentes, à expressão, palestra ou conversação em termos espíritas.

O objetivo deste artigo não é apresentar nenhuma bula orientativa ou solução mágica para esta problemática, que é conjuntural e que precisa ser interpretada não como uma crítica destrutiva aos espíritas, pessoal ou institucionalmente, mas uma proposta real de debate direcionada à materialização de alternativas reais e viáveis para a participação ou inserção dos espíritas nos cenários sociais, extra-centros espíritas, em que estejam reunidas pessoas de várias convicções, ideologias, religiões e espiritualidades, discutindo temas sociais, políticas públicas e alterações legislativas.

 

Estas, sim, são efetivas contribuições do espírita para o progresso social, superando a tendência e o comportamento considerado padrão, entre os espíritas, que costumam dizer que o nosso objetivo seriam as “questões espirituais” e que, por extensão, os espíritas não deveriam “se envolver em política”. Ora, Senhores, política é a arte de governar e não o exercício político-partidário e representativo. Ações políticas são as incursões dos indivíduos em fóruns populares ou de representação social, como, por exemplo, os conselhos (municipais, estaduais e nacionais) que tratam de temáticas de interesse social (educação, saúde, saneamento, segurança pública, infância e juventude, idoso, etc.).

A pálida proposta do Espiritismo, considerando o cenário vigente em nosso país, precisa ser superada. Caso contrário, continuaremos sendo uma bela proposição de caráter ético-moral que ficou resumida a um pequeno grupo, em muitos casos até solidário entre si, mas não operou nenhuma influência no cenário social, seja localmente seja nacional e mundial, para a colaboração que a visão espírita-espiritual poderia descortinar a muitos dos temas (e dos problemas) que a Humanidade hoje experiencia.

Porque, meus amigos, o Progresso, enquanto lei espiritual, virá. Com, sem e apesar dos espíritas!


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