Cinco possíveis efeitos da Covid-19 na prática espírita.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Muito se fala que o mundo não será mais o mesmo após a incidência da pandemia do novo corona vírus (que ocasiona a Covid-19) e muito se especula sobre os cenários, o que enseja um exercício de como seriam também os possíveis efeitos desse evento global sobre as práticas das casas espíritas, o que se tentará construir nesse singelo artigo.

A primeira suposição é de que seremos menos tolerantes com as mensagens apócrifas. Sim, vivemos uma profusão de mensagens qualificadas como Fake News nas redes sociais, na qual não se sabe o que é mentira ou meia verdade, e esse movimento influenciou também um sem número de mensagens psicografadas com informações que não fazem sentido, confundindo o público que se declara espírita em meio a tanta desinformação, o que gerou, inclusive, notas de esclarecimento de federativas.

Entretanto, uma percepção crescente no enfrentamento à Covid-19 é de que a desinformação alimenta o vírus, o que ensejou movimentos das pessoas, temerosas, por combater informações sem lastro, com mecanismos de verificação e um aumento de busca pela imprensa mais tradicional, para se informar e assim melhor se prevenir, em um movimento que se espera que contamine também os circuitos de informações espíritas, para que estas, mesmo de origem mediúnica – e que contraponham os protocolos oficiais – sejam combatidas.

 

Espera-se também que haja um maior exercício da solidariedade na prática espírita, pois o cenário atual e futuro aponta para efeitos funestos do isolamento, da doença e da crise econômica relacionada, de forma que herdaremos um mundo mais desigual em termos sociais, e com acentuação dos problemas.

Tal cenário pode provocar um resgate de nossos trabalhos de caráter assistencial, um tanto esquecidos das pautas espíritas, sem a adesão de novos voluntários, preteridos em função de outras pautas, mas que pela emergência dos problemas, podem trazer à baila novas frentes, inclusive em associação a outras denominações, nas chamadas redes assistenciais.

Apenas a título ilustrativo, uma breve consulta ao Periódico Reformador no ano de 1918, no meio da gripe espanhola, mostra na edição de maio de 1918, pp.349 e 384, como as casas espíritas se engajaram no atendimento assistencial aos afetados pela pandemia, o que demonstra como as nossas práticas são influenciadas por eventos dessa natureza.

O terceiro ponto que se antevê é o aumento (sim, ainda mais) da internet no movimento espírita. Essa quarentena ampliou sobremaneira o uso de lives, áudios compartilhados, podcasts e ainda fomentou a inovação de práticas e ações, de forma que as atividades doutrinárias migraram para o ambiente virtual, e aqueles que resistiam a usar essas facilidades, cederam pela força das circunstâncias.

Acredita-se também que na volta paulatina a normalidade, teremos um movimento menos presencial, com mais estruturas no mundo virtual, e isso se relaciona também com o quarto cenário previsto, de um espiritismo mais intimista, com menos caráter de massa.

Sim, pois ainda teremos restrições de aglomerações por um tempo. O retorno não será uma mudança de chave e sim uma volta gradual, com direito a recaídas, e muito, muito receio de todos, em especial no que se refere ao convívio. E tal condição inibirá os popularizados mega eventos que tem caracterizado o movimento espírita recentemente, prestigiando ações menores, nas próprias casas, frequentadas por pessoas que todos conhecem e já convivem, como um mecanismo de proteção sanitária que se observará no mundo fora da casa espírita e que se refletirá nela também.

Com isso, a impessoalidade dessas casas espíritas enormes, com pessoas que não se conhecem, e esses eventos de maior porte, congregando multidões, vai dar espaço a uma vivência mais fraterna, resgatando práticas de convívio um tanto esquecidas, que se combinadas com um mundo mais conectado, vai mudar em muito a nossa forma de interagir como movimento.

Por fim, pode parecer ingenuidade, mas é crível que esse movimento todo vá fortalecer o interesse nos aspectos científicos do espiritismo. Simples, pois a crise da Covid-19 se dá em uma batalha campal entre o pensamento científico, com método e evidências, com o mundo da pós verdade e o pensamento mágico, no qual o negacionismo e as soluções mirabolantes são confrontadas por opiniões sustentadas em pesquisas, e a ciência tem, no mundo todo, se fortalecido como forma de interpretação da realidade e que dá respostas convincentes ao mal que ronda as famílias.

 

A Covid-19 nos convidou a olhar a realidade dos fatos, o mundo real, pois é nesse mundo que estão seus efeitos. Nos instou a viver no mundo, sem ser do mundo. E a entrar nesse mundo, mesmo que trancado dentro de casa, e nesse sentido, o espiritismo lastreado no método kardequiano se apresenta como fonte segura nessa selva louca e desvairada que nos encontramos.

Pode parecer um excesso de otimismo essa visão dos possíveis efeitos da Covid-19 no movimento espírita, mas é só observar o cenário da sociedade, e o que virá, para entender como isso se refletirá na nossa prática. O historiador Leandro carnal, em entrevista televisiva no dia 26/03/2020, aponta que a peste negra forneceu os elementos para o renascimento, após o extenso período da Idade Média, e que a gripe espanhola se refletiu na preocupação com a saúde pública, reforçando que crises auxiliam a revisão de paradigmas, em especial no caso da Covid-19, que abala o cotidiano de todos nós, de uma forma que nenhuma das gerações encarnadas viveu.


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