Um tempo carente de silêncio: o primeiro idioma a aprender

[Crônica]  A infinita necessidade das pessoas terem opinião sobre tudo. 

Marcelo Henrique

A modernidade trouxe, não como benesse, mas como conquista a liberdade de expressão. Quem estuda a História (real) da Humanidade, contempla os diferentes momentos em que a livre expressão não era atributo de todos os cidadãos, em dadas sociedades, sendo direito de poucos ou de alguns. E, em outras épocas, seja o poder político seja o religioso – por vezes de mãos dadas – também impuseram a castração da liberdade de manifestação das inteligências.

Não é o caso de hoje. E os meios midiáticos, sobretudo os virtuais, de acesso fácil e simples, até gratuito em muitas ocasiões, permite que qualquer indivíduo se expresse. E nem sempre com clara identificação ou assunção de sua real personalidade. Perfis falsos, montados, pseudônimos, identidades fictícias ou copiadas de “nobres” personagens, grassam desde os sites de informação e notícias até as redes sociais.

Nelson Rodrigues já falava sobre o monopólio dos idiotas. Aqueles que sempre tem algo na ponta da língua ou dos dedos para falar ou escrever. Os que “dão pitaco” em tudo, os “professores doutores em coisa nenhuma”, críticos ácidos de tudo o que leem ou ouvem, sem compromisso com nenhuma verdade ou lógica.

 

Em paralelo, temos as múltiplas carências humanas, fincadas sobre déficits de atenção existenciais, como a falta de oitiva no lar, na família, no trabalho e a (quase) inexistência de amigos (sinceros) que se disponham a ouvir o que o indivíduo tem a dizer. Neste particular, há, também, os que, desocupados por causas várias, passam o dia todo (e a noite, por vezes, também, ou a madrugada inteira), comentando tudo sobre tudo…

E existem os que adoram entrar em polêmicas gratuitas, em tentar desqualificar a opinião alheia, só porque se locupletam em ver “o circo pegar fogo”, apagando os incêndios verbais das disputas de opinião com bastante gasolina!

Também há aqueles que não tem o mínimo respeito para com o outro – talvez não tenham nem o sempre necessário autorrespeito – e passam a vociferar impropérios, a contemplar a argumentação ad hominem (que tenta desqualificar o outro não em face das opiniões e manifestações, mas pelo que “se acha” que ele é, baseado em fotos de perfis, postagens ou, mesmo, comentários.

Vejo com muita tristeza alguns comportamentos, sobretudo em redes sociais, que ilustram as situações acima e que geram contratempos, rupturas, discussões estéreis, inimizades e até o alimentado ódio permanente. Isto não é, nem de longe, comportamento ou postura que possa ser enaltecida ou cultivada.

 

Se o que tenho a dizer (ou escrever) não agrega valor nem para mim, porque vou fazê-lo? Por que externar uma opinião cuja intenção é, apenas, demonstrar, talvez, erudição, leitura ou experiência? Em que o(s) outro(s) poderá se beneficiar com aquilo que escrevo ou falo?

Em muitas situações, vale muito mais o SILÊNCIO, que deveria ser o idioma de mais habilidade para a nossa comunicação. O primeiro e o maior dos idiomas…


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+ Marcelo Henrique