A crise do coronavírus e a reinvenção do movimento espírita

Pedro Camilo | 

A crise trazida pelo coronavírus, obrigando as pessoas ao isolamento social, talvez tenha aberto ao movimento espírita a oportunidade de repensar algumas de suas práticas.

A impossibilidade das pessoas se reunirem nas instituições para realização de reuniões públicas, sobretudo aquelas destinadas a exposições doutrinárias ou ao estudo em geral, forçou os diversos grupos a se reinventarem, adaptando os seus encontros ao novo contexto. Como resultado, temos assistido a um grande número de instituições que conseguiram manter algumas de suas reuniões semanais através dos meios virtuais, permitindo às pessoas o acesso direto a partir de suas residências.

É verdade que, de ordinário, muitos grupos já têm adotando a prática de transmitir, no mundo virtual,as reuniões que acontecem fisicamente. No entanto, a dinâmica do universo virtual é bem diferente da dinâmica do contacto direto, levando-nos ao caminho de adaptação dessas reuniões para essas novas ferramentas.

Penso que essa translação das reuniões presenciais para reuniões exclusivamente virtuais não deve ser apenas uma simples e mera transposição de lugar, devendo sim abrir espaço para que o próprio modelo de encontros espíritas seja reestruturado.

 

As reuniões virtuais podem assumir características diferentes. No lugar das palestras, que duram cerca de sessenta minutos e que quase sempre não franqueiam espaço para participação do público, os encontros virtuais poderiam ter tempo de exposição menor e maior tempo de interação, facultando uma efetiva participação do público e, consequentemente, o melhor aprendizado de parte a parte.

Alguns grupos que contam com confreiras e confrades que gozam de maior familiaridade com as ferramentas virtuais, poderiam também pensar na criação de espaço, simultâneos de estudo virtual, e não de meras exposições doutrinárias. Grupos menores facilitariam uma maior interação e tornariam a dinâmica do aprendizado mais efetiva, alcançando-se o objetivo maior, que é o esclarecimento e a consolação de maior número possível de pessoas.

Também penso que essa nova experiência pode ser muito bem aproveitada para repensar os grandes encontros espíritas, como congressos, fóruns e seminários, que costumam mobilizar expositores de diferentes partes do país e do mundo com grande dispêndio financeiro. Tamanha mobilização, com gastos de deslocamentos, hospedagem, alimentação e outros, bem poderia encontrar uma via alternativa com a participação dos confrades e confreiras convidados falando diretamente dos lugares em que se encontram, de suas casas ou instituições, em suas cidades, com intervenções via universo virtual. Isso contribuiria significativamente para diminuição não somente de despesas desses encontros, mas também de toda discussão que se cria em torno da verdadeira utilidade de gastos tão altos e cobranças de ingressos com valores exorbitantes para realização de eventos assim.

Não tenho o objetivo, com este texto, de esgotar o assunto, mas de lançar às instituições e aos confrades e confreiras espíritas uma provocação, no sentido filosófico da palavra, para que toda a experiência vivida neste momento de reinvenção possa ser aproveitada, de agora em diante, contribuindo-se para o melhor aproveitamento dos recursos financeiros e humanos de que dispomos no movimento espírita.

Está lançado o desafio. Vamos trabalhar?


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