A Tradição dos Congressos Científicos

Por Franklin Santana Santos

Congressos espíritas, marcados pela oratória e retórica de auto-ajuda e ausência de trabalhos científicos e debates, renunciam aos critérios da lógica e da razão propostos por Kardec. A pedagogia espírita propõe-se a resgatar essa tradição científica.

A aliança do Espiritismo com a ciência se deu desde o início com Allan Kardec e depois da morte deste ocorreu em várias áreas do conhecimento, como nas pesquisas de William Crookes (1832-1919) com a fotografia de Espíritos materializados; com W.J. Crawford (1881-1920) sobre a mecânica das alavancas das mesas girantes e os fenômenos de voz direta; na metapsíquica de Charles Richet (1850-1935); no desenvolvimento da física transcendental com J.F. Zollner (1834-1882); entre outros.

Ao chegar ao Brasil no final do século 19, o Espiritismo encontrou um país sem tradição em filosofia e ciência. Surgiu, então, um modelo de Espiritismo religioso, mesmo místico, que se por um lado permitiu a difusão em larga escala da Doutrina, acabou também por se desfigurar.

A tradição de realizar congressos científicos, presente até meados da década de 1930 – onde eminentes pesquisadores como Paul Gibier (1851-1900), Alfred Russel Wallace (1823-1913), Alexandre Aksakof (1832-1903), Léon Denis (1846-1927) e Gabriel Delanne (1857-1926), entre outros discutiam suas hipóteses de trabalhos, os resultados de pesquisas práticas e os debates de ordem científica – desapareceu.

O CRITÉRIO DA LÓGICA E DA RAZÃO

Essa situação persistiria até o final das décadas de 70 e 80, quando, então, ressurgem os congressos reivindicando o título de espíritas, entretanto, centrados em discursos de oratória e retórica e de auto-ajuda, com médiuns sem pesquisas nas áreas sobre as quais discursavam e o que consideramos mais grave: congressos não deliberativos e sem trabalhos científicos, em oposição ao que Kardec indica no seu livro Obras Póstumas.

Diante desse panorama, a pedagogia espírita propõe-se a resgatar aquela tradição científica de outrora, fomentando o diálogo com a universidade não só através de defesas de teses, mas também levando pesquisas para serem apresentadas em congressos científicos e convidando espíritas e não-espíritas, especialistas nas suas áreas de saber, a dialogar, debater e analisar esses trabalhos.

A pedagogia espírita representa uma dessas alianças, desejada por Kardec, na área da educação, uma vez que ele escreve que o Espiritismo é uma ciência que está ligada a todos os ramos da economia social, aos quais empresta o apoio de suas próprias descobertas, como por exemplo, o princípio de encarar a criança como em ser reencarnado que está pronto a “assimilar todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que elas sejam desde que elevadas ao estado de verdades práticas e saídas do domínio da utopia.” E para se sair dessa domínio é necessário a criação de uma pensamento científico que corrobore o desenvolvimento desse arcabouço teórico, faz-se mister que esse corpo de leis seja aplicado no dia a dia da sociedade na qual se acha inserida, fomentando a discussão e o trabalho dos espíritos encarnados na construção de algo novo.

SEGUINDO UMA PROPOSTA DE KARDEC

Kardec entendia que, enquanto ciência, o Espiritismo é necessariamente fruto do trabalho e da pesquisa. “Pelo fato de que, tanto aqueles que o transmitem como os que o recebem não são seres passivos, dispensáveis do trabalho de observação e pesquisa; por não renunciarem ao seu próprio julgamento e livre-arbítrio porque o exame não lhes é interdito, mas ao contrário recomendado; enfim, a doutrina não foi ditada completa nem imposta à crença cega; porque ela é deduzida do trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos pelas instruções que a ele dão, instruções estas que o homem estuda, compara a das quais tira ele mesmo as suas conclusões e aplicações”, explicou ele no livro A Gênese (grife nosso).

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