COnVite a InterDependência

Por Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Muita gente boa não percebeu que essa crise sanitária foi um convite a interdependência, em um mundo que anda tão permeado de individualismo, um nome gourmetizado do velho egoísmo.

Na década de 1980 (1986, mais precisamente) relançaram nos EUA e também no Brasil, o seriado “Além da imaginação” (Twilight Zone), original de 1959, uma criação de Rod Serling e, nessa nova roupagem (já teve outras reedições, inclusive uma dos tempos atuais na Amazon Prime), havia um episódio assustador, com o nome original “Button, Button”, e que veio a ser convertido em um filme chamado “A caixa”, datado de 2009, estrelado por Cameron Diaz.

Nesse episódio, um estranho presenteia um casal com uma caixa com um botão na parte superior, prometendo que, se eles o apertarem, irão receber uma grande quantia em dinheiro. Mas, ao apertar o botão, alguém que eles não conhecem irá morrer. Um mote de gelar a espinha que, para ilustrar o tema do presente artigo, vamos desenvolver com um pouco de spoilers, dado o tempo distante de exibição do mesmo.

O dilema moral consome todo o episódio. Os protagonistas jogam a caixa fora, mas no outro dia ela aparece na porta da frente de novo. E por fim, após grande conflito, eles apertam o botão, e no dia seguinte, surge novamente o misterioso homem de outrora, pegando a caixa de volta e entregando a eles uma vultosa soma em dinheiro. Ao indagarem o homem sobre o destino da caixa, este responde que ela será entregue a alguém que eles não conhecem.

Fora a noite mal dormida depois de ter assistido esse episódio na minha juventude, ele trouxe uma profunda reflexão, que foi resgatada agora, nesse período da crise sanitária derivada do Novo Coronavírus. O sagaz episódio trata da interdependência que nos vincula, enquanto espíritos encarnados, e que emerge com força agora com a pandemia da Covid-19. Trata, enfim, da solidariedade.

 

Sim, pois essa pandemia (como outras da história), apesar de ser evitada pelo isolamento social, exige que saiamos de nossa individualidade para adotar pactos coletivos entre as pessoas e que impeçam a proliferação do vírus. Assim, ao nos comprometermos a reduzir a nossa circulação, a usar máscaras e álcool em gel, percebemos que esses ritos só têm efetividade na adoção destes por uma grande maioria.

Da mesma forma, a solução para essa pandemia, como em outras – a vacinação – não é uma questão individual e sim coletiva, pois a proteção efetiva só ocorre quando uma parte significativa da população está imunizada. Uma realidade na qual importa a vacinação geral e não a vacinação de uma pessoa apenas com a vacina A ou B, como têm defendido os pesquisadores.

Para além de esvaziar argumentos dos chamados “sommeliers de vacina”, essa discussão da crise sanitária se assemelha a lógica da Caixa do Twilight Zone. O homem misterioso oferece um benefício que depende de uma escolha, mas essa escolha pode afetar alguém que você não conhece. Mas, esse alguém amanhã pode ser você!

Da mesma forma, o contexto de prevenção da Covid-19 nos convidou a escolhas, que poderiam nos trazer o benefício imediato, como desprezar protocolos sanitários, mas que poderiam prejudicar alguém que não conhecemos. E esse mal nos atingiria, em algum momento, seja pela doença ou por outras consequências advindas desta, em um verdadeiro circuito fechado.

Muita gente boa não percebeu que essa crise sanitária foi um convite a interdependência, em um mundo que anda tão permeado de individualismo, um nome gourmetizado do velho egoísmo. Tão ocupados com as nossas questões, nos vimos obrigados a pensar no coletivo, como foi com a varíola, que causou a revolta da vacina no Rio de Janeiro, em 1904. Aliás, a varíola, chaga mortal, só foi erradicada do planeta em 1980, quando houve uma articulação dos países para o seu combate, inclusive nos bolsões de pobreza em muitos países.

 

A Covid-19 é uma doença terrível, mortal, e no Brasil e no mundo acumula mazelas na grande quantidade de óbitos, sem contar os problemas derivados das sequelas e dos reflexos sociais, em um universo de grande desconhecimento da extensão dos males derivados dessa enfermidade. Cabe a nós se solidarizar pelas vítimas e trabalhar para a sua efetiva erradicação.

Mas, é inconteste que a solução das mazelas desse vírus passam pelo resgate da interdependência, da percepção de que cada espírito encarnado é um irmão de jornada, de que cada país é parte do mesmo planeta, e que o nosso agir será efetivo não somente para nos resguardar, mas também para proteger uma pessoa que não conhecemos. Uma pessoa que amanhã pode ser a gente.

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