Dialógica Espírita

Por Marcelo Henrique

Inspiracionalmente, o diálogo remonta à filosofia socrática: é o próprio processo de busca incessante da verdade por meio de perguntas e respostas. “Diálogos”, aliás, é obra imortal de Platão, discípulo do mestre grego, apresentando a marca de que cada diálogo tem o nome do seu principal interlocutor.

Diz-se que só os homens, espíritos maiores, são capazes de dialogar, de se dirigirem e responderem uns aos outros, lógica e conscientemente. Será mesmo? Sob quais padrões? Vê-se que os animais em geral se comunicam entre si, em linguagens próprias nem todas audíveis ou acessíveis ao entendimento humano. Indo mais longe, as plantas também interagem e reagem, devendo ter seus signos comunicativos, em outras dimensões e alcances. Por que não? Jocosamente (mas não muito), poder-se-ia dizer que alguns animais dialogam mesmo (e se entendem!) e alguns homens não o conseguem, tão embrutecidos que se encontram.

Em vários dos nossos campos de existência, nos cenários em que participamos, vez por outra acompanhamos “tentativas” de diálogos. Pode ser entre marido e mulher, pais e filhos, patrões e empregados, vizinhos, circunstantes… Já presenciamos, por certo, essas situações em que, enquanto um fala o outro NÃO ouve. Diálogo de “surdos”. Enquanto um balbucia em distintos níveis de tom emocional e em quantitativos variáveis de decibéis, o outro está tão-somente concentrado em construir seu próprio pensar, para refutar e contestar o que o outro diz – e pensa.

Não há diálogo, pois, nestes quadrantes. Nem poderia haver. Não há a necessária disponibilidade de “abrir-se” para o outro, de deixa-lo interferir no “nosso” viver, apresentando-nos uma nuance diferente daquela em que nos acostumamos a viver. É um desafio, pois, estar com o “diferente” – ainda que, em essência, as diferenças sejam, quase sempre mínimas e, até, minúsculas em termos de importância e conteúdo vital. Estar com quem pensa diversamente de nós embute a necessidade de reforma, de revisão, de reestruturação do nosso próprio pensamento e de nossas ações, por extensão, passando pela expressão externa de nossas ideias, via fala. E quem está disposto a isso, todas as vezes? Quem se afasta da cultuada e conhecida “zona de conforto” da segurança do nosso pensar para aventurar-se por conhecer (e viver) novas fronteiras? Quem?

Passamos a vida toda estruturando o nosso ser. Nós reencarnacionistas dizemos mais: reestruturando, porque o ponto de partida são as inúmeras vivências que já tivemos antes, em outras andanças. Estruturação (ou re) que passa pela definição do que somos, do que queremos, do que fazemos… Planos de vida, relações, pendências, gostos, simpatias e… é claro, aversões, fugas, distanciamentos… Afora os que parecem viver, como Francisco Xavier, “entre mundos”, isto é, com um pé lá (planos espirituais) e outro cá, a maioria de nós, viventes, quer a manutenção de nossas “conquistas” terrenas, a segurança do “já estabelecido”, a garantia de “estarmos certos”, em tudo (ou quase), plenamente. Quando este estado de coisas é “aviltado” por uma opinião – pasmem, lógica e racional, longe da emotividade das aparências –, ficamos literalmente “sem chão”. Perdemos o norte, a bússola, o plano de voo que só as certezas programadas poderiam nos permitir antever e realizar. E, em grande parte das vezes, como no gesto simples de sair de casa para ir ao trabalho, mentalmente programamos o roteiro, o “caminho”, o percurso para chegarmos ao nosso destino, sem sobressaltos. E queremos que “assim seja”.

Continuamos achando que a vida é assim: pré-programada, definitiva, “espiritualmente” traçada por nós e pelos nossos guias espirituais antes de ocuparmos espaço no zigoto que se formou – planejadamente, em regra, diga-se de passagem, mas comportando as exceções que a própria didática contida em “O livro dos Espíritos” prenuncia. Lá estaremos nós com o “papai” e a “mamãe” que nos foram predestinados, para o cumprimento de mais uma “missão” espiritual, a da construção permanente de nossa personalidade espiritual. E, assim, por termos a tal “programação” (leia-se planejamento encarnatório), embarcamos na vida como meros passageiros, à espera de que a nau nos conduza – embora por algumas correntes e mares bravios, em alguns momentos – ao porto seguro do fim desta jornada. Sem sobressaltos, repetimos. O mais “equilibradamente” possível, é o que desejamos…

Mas o fato é que não somos passageiros, mas pilotos. Não somos coadjuvantes, mas atores principais. Não somos expectadores, mas realizadores de ações e receptores das reações…

Esquecemo-nos então de que a cada dia, uma história nova está por ser escrita. Situações nunca antes vividas entremeadas a rememorações de contatos anteriores, com pessoas, situações, fatos, ambientes. Tudo se parece novo e ao mesmo tempo antigo para nós. Cada situação se nos parece com outra(s) já vivenciada(s), ainda que não saibamos “aonde” os ventos irão nos levar. O nosso desejo, sincero e até racional-emotivo, proporcional ao nosso contexto espiritual, aponta para a presciência dos resultados. Impossível! Não dá para “fingir” emoções e manter-se equilibrado diante das “surpresas” que “aparecem”, por mais que nos consideremos conscientes. Mesmo preparados, pela necessidade e a vontade de acertar, por motivos de nossa atuação ou da dos outros, tudo pode mudar em segundos… destruindo, assim, a fortaleza de nossas garantias, a programação íntima dos nossos sucessos.

Mas, voltemos à dialógica. E dialógica espírita! Tão provocativa quanto contundente, tão natural quanto surpreendente, tão necessária quanto insinuante, tão desejável quanto audaciosa. Sim, porque não são iguais as percepções individuais sobre as leis espirituais e os seus reflexos em nossas vidas ou nos acontecimentos que presenciamos. Nem poderiam ser, porque cada um vive o SEU momento, cada um tem um passado e um presente diferentes. Não há, diversamente do que se cultuou por muitas décadas, em quase um século de permanência das ideias espiritistas neste nosso querido Brasil, uma única verdade interpretativa. Sim, há leis e há princípios e estes se enquadram em cada situação experimental de cada ser, progresso afora… Se nos foi dito, pelos Espíritos Superiores, que elas, as leis, seriam imutáveis, dada a imutabilidade do Criador, a aplicação delas e o entendimento sobre seus efeitos iria e irá permitir entendimentos múltiplos e expressões assaz variadas. Uma para cada situação ou momento. Não há cânones divinos, pois estes são construções materiais-mundanas dos homens falíveis em suas trajetórias. São visões particulares, parciais e momentâneas, que até podem assumir a condição de regra normativa ou ética em função de condicionamentos, costumes ou acordos de convivência. Não os tenhamos, pois, no Espiritismo. Não tenhamos regras rígidas para “domesticar” consciências à nossa verdade, na feição e na expressão de nossos desejos e necessidades, igualmente perecíveis em função da momentaneidade da atual vivência na carne. Não é mais tempo de exceções, de policiamentos, de patrulhamentos e de proteção a eventuais purezas doutrinárias e suas verdades.

O mundo abre-se para as “novidades”. As pessoas estão se despindo dos seus atavismos e de suas prontas verdades e acabadas ideias, para permitirem-se vivenciar o novo, o impensado, o não convencional e, porque não dizer, o dialógico. Independente de sua formação cultural, religiosa, familiar, educacional e tantas outras, os seres deste milênio passam a conhecer novas interpretações (nem tão novas assim, no sentido coletivo e espiritual) de distintas situações da vida, em relação a si, ao outro, ao coletivo. Os que estão reencarnando já trazem em si esta “marca”, a da abertura para o outro. E vêm em tenras idades, precisando, assim, daqueles mais experientes, em idade e em vivências, para abrir-lhes os caminhos, pavimentando estradas para que eles possam, rapidamente, avançar. E nós iremos com eles! É época de ler, de assistir, de presenciar, de interagir, de… dialogar. Dialogar como a forma de se dirigir e responder ao outro, como igual, alteritariamente, sem posições superiores e inferiores, estabelecendo uma relação homogênea e horizontal, pela linguagem que é a forma de expressão particular de cada um, com os aprendizados que a vida lhe proporcionou. Reciprocidade, assim, em que a diferença e a semelhança são igualmente úteis, porquanto necessárias. E sem a (antiga e já evitável) necessidade do convencimento alheio, por cooptação, por sugestão indutiva, por exigência da razão individual e do desejo de reconhecimento, pelo outro. Expor ideias para alargar os próprios horizontes da percepção e do pensamento. Vera dialética, em que a discussão pressupõe a apresentação leal e coordenada das crenças, dos saberes, das experiências. Em Sócrates, tínhamos o experiente interlocutor que buscava, maieuticamente, que cada um pudesse desvendar o seu próprio conteúdo de convencimento íntimo e pessoal, externando-o e avaliando-o. Contestativamente, sim, porquanto a insistência e o mergulhar em si mesmo provocava, na grande maioria, a dúvida (ainda maior) em suas então certezas. E os abandonos das “crenças” individuais, vez por outra.

O “espírito” da lógica espírita pressupõe esta maiêutica, mas sem o terceiro presente, o outro. Em que existem o primeiro e o segundo dentro do mesmo ser, do mesmo Espírito. O primeiro, que se baseia nas suas próprias interpretações e convencimentos, o que estabelece os roteiros, as convicções, as “verdades”. O segundo, ele mesmo, que se aventura a perguntar a si próprio: – Será mesmo assim? Não haverá outra explicação, outro entendimento? Desta contestação, a luz, o aprendizado. E novos questionamentos… Infinitamente!

Este é um imprescindível processo, que nos faz desconsiderar a teoria espírita como dogma – ainda que nós, espíritas, nos esforcemos em autobradar que o Espiritismo não tem dogmas. Mas os tem, sim, senão na sua filosofia, mas na sua práxis, na sua vivência cotidiana de grupos e centros, teses, escritos e palestras, como se estivéssemos a estabelecer conceitos definitivos (ainda que Kardec tivesse insistido na progressividade dos ensinos espíritas), cooptar consciências e direcioná-las segundo “um único e reto caminho”, o da “salvação”, o da “redenção”, o da “evangelização” ou o da “espiritualização”. Kardec já havia antevisto que passaríamos por esta fase de aguda religiosidade e prática religiosa espírita (daí a profusão e a proeminência do dogmatismo entre nós). Não, este não é um texto para apontar o dedo da condenação ou de censura a quem quer que seja. Mas é um fraternal alerta para o “tempo que já chegou” e a necessidade imperiosa da nossa revisão comportamental e estrutural do movimento “dos espíritas”. Longe dos dogmas comportamentais…

Chegou a hora, amigos! A Dialógica pressupõe chamarmos a todos, mesmo os que estejam mais distantes e “acuados”, para a mesma mesa, o mesmo fórum, o mesmo ambiente. Sem a pretensão de “dizer verdades” nem de uniformizar consciências, pelo gratificante desejo de ter ao seu lado todos os que trabalham pelo Planeta, por sua espiritualização plena. Já se foi o tempo das contendas, das desditas, dos rompimentos, das querelas e das pronúncias. É tempo de convergir, de unir e trabalhar. É tempo do diálogo franco, sincero, proativo, permanente. Para a Dialógica Espírita, Kardec está à frente e nos aguarda!

Este conteúdo não reflete, necessariamente, a opinião da Casa Espírita Nova Era.


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