Kardec e o Vinho

Marcelo Henrique e Paulo Henrique de Figueiredo

No livro “Viagem Espírita em 1862”, considerado como os anais das incursões de Kardec como Divulgador do Espiritismo, podem ser encontrados riquíssimos relatos do novel movimento espírita europeu, o esforço de Kardec por levar o incentivo para as iniciativas em distintos lugares, assim como diálogos e depoimentos muito importantes.

Um deles está associado à comemoração entre aqueles PRIMEIROS ESPÍRITAS valendo-se, certamente, de belas garrafas do melhor vinho francês – até hoje, reconhecidamente, um dos melhores do mundo. A descrição, abaixo, está associada à viagem que o levou aos trabalhadores espíritas de Saint-Just. Vejamos:

“Obrigado, Sr. Allan Kardec; mil vezes obrigado, em nome do grupo de Saint-Just, por terdes vindo entre nós, simples operários e ainda muito imperfeitos em Espiritismo; vossa presença nos causa uma grande alegria em meio de nossas tribulações, que são grandes neste momento de crise comercial; vós nos trazeis o bálsamo benfazejo que se chama esperança, que acalma os ódios e reacende no coração do homem o amor e a caridade. Nós nos aplicaremos, caro mestre, em seguir vossos bons conselhos, bem assim os dos Espíritos Superiores que tiverem a bondade de nos ajudar e instruir, a fim de nos tornarmos, todos, verdadeiros e bons espíritas. Caro mestre, tende certeza de que levais convosco a simpatia de nossos corações para a eternidade; nós o prometemos. Somos e seremos sempre vossos adeptos sinceros e submissos. Permiti, a mim e ao médium, que vos demos o ósculo do amor fraterno, em nome de todos os irmãos e irmãs aqui presentes. Ficaríamos muito felizes também se quisésseis brindar conosco.

Vínhamos de longe e tínhamos subido às alturas de Saint-Just com um calor sufocante. Alguns refrescos tinham sido preparados, em meio dos instrumentos do trabalho: pão, queijo, algumas frutas, um copo de vinho, verdadeiro ágape oferecido com a simplicidade antiga e um coração sincero. Um copo de vinho! Ah! Em nossa intenção, porque essa boa gente não bebe todos os dias; mas era uma boa festa para eles: ia-se falar de Espiritismo. Oh! Foi com um prazer imenso que brindamos com eles, e seu lanche modesto, aos nossos olhos, tinha cem vezes mais valor que os mais esplêndidos banquetes. Que tenham eles aqui a certeza disto”.

Dele se depreende um magnífico trecho: Um copo de vinho em nossa intenção. Um verdadeiro ágape, portanto. Corolário da simplicidade vigente àquela época e expressão de um coração sincero.

Eis que nós, aqui, ainda hoje, ao nos referirmos a esse episódio, podemos dizer que brindamos com eles! E com um prazer imenso!

Não há nenhuma descrição, ainda, objetiva, sobre a “presença” do vinho na ocasião do lançamento, em 18 de abril 1857, de “O livro dos espíritos”, em sua, ainda, primeira edição, não-ampliada e definitiva. Mas temos a impressão de que naquele inesquecível dia, algumas garrafas especiais devem ter sido abertas por Kardec e seus mais próximos e diletos amigos, para brindar entre si e com aqueles que, motivados pela publicidade da notícia do lançamento da alvissareira obra, devem tê-la degustado, em primeiras leituras, com um cálice daquele que é “a bebida dos deuses”.

Portons un toast a Kardec! (Um brinde a Kardec!)


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