Livre arbítrio: consequências naturais

Ainda é muito comum se observar que mesmo espíritas, muita gente pensa estar sob castigo, punição ou recompensa divinos, em função de seus atos.

Cristina Sarraf 

Ainda é muito comum se observar que mesmo espíritas, muita gente pensa estar sob castigo, punição ou recompensa divinos, em função de seus atos. O que denota em parte, a ausência dos raciocínios sustentados pelo conhecimento dos Princípios do Espiritismo, e noutra parte, o resultado dos desvios de entendimento espírita, resultantes da adulteração feita após a desencarnação de Kardec, dos livros O céu e o Inferno e A Gênese. Pois a deturpação de conteúdo feita nessas obras combina com esse entendimento equivocado e retrógrado, em relação aos conceitos libertadores e autônomos que as caracterizam.

Didaticamente estudamos os Princípios espíritas Livre arbítrio e Consequências naturais separadamente, mas eles nos são apresentados por Kardec, de forma casada indissoluvelmente, no capítulo da Lei de Liberdade, em O Livro dos Espíritos. Obviamente, estão acoplados e derivados de outro dos Princípios que é a lei universal da Progressão ou Evolução dos Espíritos.

Fixando-se na fase evolutiva humana, Kardec estudou esse assunto ao longo de seu trabalho, e em seu último livro, A Gênese, completa o que já havia deixado entrevisto em O Livro dos Espíritos, escrevendo que o processo evolutivo humano se caracteriza pelo desenvolvimento gradativo da inteligência racional, da qual se origina, também gradativamente, o arbítrio. Vemos isso no texto original dessa obra e não no adulterado, que encobriu tudo referente a sermos perfectíveis. Ou seja, retrocedendo à ideia da submissão medrosa pelas punições divinas, tal qual os adulteradores fizeram em O céu e o Inferno.

A evolução espiritual é um processo pessoal, gradativo e exclusivo, pois embora todos tenhamos as mesmas oportunidades, elas vêm em tempos diversos, o que estabelece a história espiritual própria de cada Espírito. Por isso mesmo, o arbítrio é pessoalmente livre e tem nuances de desenvolvimento, gradação, profundidade e maturidade exclusivas em cada um.

Do que resulta que as consequências naturais dele são sempre específicas, embora pessoas e Espíritos se conduzam de forma semelhante. É que as estruturas individuais, as motivações e os interesses jamais são idênticos.

Evolução espiritual na fase humana -> inteligência racional -> livre arbítrio -> consequências naturais -> senso moral.

Cada parte dessas se desenvolve de forma lenta, gradual, multifacetada, coerente entre si e específica; o que se observa facilmente em cada um de nós, nos vários aspectos da Vida, uns mais e outros menos desenvolvidos, de modo até ilógico.

Importante ressaltar que a base do arbítrio são os pensamentos, conceitos e ideias, seu teor, intensidade e persistência ou fugacidade. Atos e palavras são a primeira consequência natural da escolha ou aceitação de certo modo de pensar sobre cada detalhe da vida. Depois vêm as demais consequências, mesmo que não percebamos esse mecanismo.

Daí a importância da análise do que realmente se quer pensar, e a escolha, o mais possível consciente, conforme o senso moral que se tenha, do que nos serve, nos representa e dignifica.

Se pensarmos, por exemplo, numa família ou ambiente de trabalho, ou entre amigos, cônjuges, ou no conjunto da sociedade de uma cidade, país… logo entenderemos que as características individuais de cada um de seus componentes, encarnados e desencarnados, contam profundamente na caracterização do ambiente fluídico/energético que formam, pela somatória das emanações mentais de todos. Livre arbítrio e consequências naturais!!

 

Em cada um, a manutenção de sentimentos, atitudes, emoções, conceitos, pensamentos, intenções e situações vividas, bons e ruins, estabelece uma espécie de ambiente pessoal fluídico, cujo teor é a resultante das nuances e detalhes de escolhas feitas; sobretudo das mais intensas, persistentes e cultivadas.

Assim, somando pessoas e/ou Espíritos forma-se um “ambiente” comum, fruto da integração de todos os “ambientes” pessoais. Este pode ser saudável, ruim, alegre, pesado, vingativo, progressista, amoroso, competitivo, doentio, bom, perturbador, agradável, destruidor, renovador, retrógrado… Consciente ou inconscientemente escolhidos; mesmo que assimilados e copiados.

São campos vibratórios temporários ou persistentes, oscilantes ou fixados. Quando de boa qualidade fazem bem; sendo o oposto, prejudicam.

Os bons são como que luz. Os maus como que trevas, dos quais é bem difícil sair, superar, desligar-se ou modificá-los, porque têm muita densidade, prendem a mente e seduzem para o medo, a preguiça, a incapacidade e a acomodação nas zonas de conforto, ilusórias e traiçoeiras.

Claro que para querer libertar-se saindo da participação em um campo vibratório negativo, pegajoso e limitante, é preciso perceber como nos pusemos nisso; as escolhas… e o prejuízo resultante.

E será preciso querer, de verdade, a ruptura com essa situação; buscar outra melhor, começando por escolher nova forma de pensar; persistência! As boas consequências virão aos poucos. Afinal… todos queremos ter alegria de viver e felicidade. Fica o convite para aguçarmos a percepção e a observação – sem preconceitos, ilusões ou medos – para analisar como temos escolhido pensar e agir cotidianamente; assim será possível melhorar opções, em prol da própria coerência e harmonia.


Continue no Canal
+ Cristina Sarraf