RE-conhece-TE

Procuro localizar o estopim inicial para tanto ódio e tanta animosidade, mas não encontro o embrião.
Marcelo Henrique

Brasil, 2020, inverno. Árvores secas, pós-outono, com folhas que já tinham sido levadas ao chão, pelo movimento natural que obedece às estações. Frio, intenso em muitas regiões, como há anos não se via. Distanciamentos, físicos, impostos seja pela prudência, seja pelo temor, em obediência a parâmetros confiáveis de organizações de saúde no planeta, ainda que, aqui ou ali, certos “heróis” desafiem a lógica, as estatísticas e os números clínicos.

Estamos “em rede”, e as redes nos permitem acompanhar praticamente tudo o que há, de inúmeras fontes. A tão sonhada pluralidade da aldeia global, descrita por McLuhan – que estudei na faculdade de Comunicação Social – Jornalismo (UFSC) – resta materializada, para nosso deleite e proveito. E a democracia pela qual muitos de nós lutamos – eu, com 13, 14 anos, no fim da era de chumbo, ainda no Instituto Estadual de Educação, em Florianópolis (SC), desafiando os últimos censores estudantis que ainda respiravam os ares putrefatos da dominação ideológica – vai se aperfeiçoando, não sem sobressaltos e feridas, nos dias da ainda muito jovem república tupiniquim. Trinta e dois anos, quase, da Constituição Cidadã (Ulysses, guerreiro coragem, à frente) é muito pouco para nos dar sinais de serenidade perene e compreensões recíprocas. Ainda estagiamos, portanto…

Vejo ringues, e não são poucos. Procuro, em minha mente, localizar o estopim inicial para tanto ódio e tanta animosidade, mas não encontro o embrião. Talvez esteja em outro tempo – que não vivi, mas que ouvi dos genitores e dos professores e amigos de mais idade. Ou, também, sejam os resquícios de outras existências, em que muitos de nós atuamos em belicosidade explícita, nas revoluções armadas e entre exércitos de várias cores e matizes.
Há incompreensão generalizada. E as chispas que saem dos olhos – e das palavras escritas nas plataformas cibernéticas, as mais variadas – não dão trégua. Nem mesmo diante de um mal maior, pandêmico, que se instalou e que se renova, por vezes, em mutações genéticas. Já se ouvem notícias de que há outras pragas em curso, atacando a saúde física de grande parte da população planetária.

Mas há outra “doença”, igualmente – ou mais – invisível, pois não é detectada por nenhum teste ou instrumento clínico, nem por nenhum profissional de saúde. Não sei dizer se a causa é um vírus – como o HIV ou o Covid19 – ou é uma bactéria – como a tuberculose ou a cólera. Porque está há muito tempo na Humanidade…

E em meio à batalha pela vida diante de tantas ameaças biológicas, ela parece suplantar a tudo isto e manter-se como um elemento de retroalimentação constante, indestrutível, a princípio, não havendo, por ora, nenhum antídoto ou medicamento que produza eficácia.

É o ódio.

 

E há gente que, mesmo sem perceber, se alimenta e retroalimenta deste ódio, como uma razão existencial. É uma torcida insana, como o foi, antes, também, em períodos de disputas eleitorais, de aniquilamento de uns pelos outros, de diminuição da individualidade alheia, e da dificuldade elevada em respeitar o que o outro pensa, e o que ele é ou deseja ser, por consequência.

Abstraio, então, as barbáries do dia-a-dia, nas redes sociais, para inundar-me de fundamentos que possam conduzir, a mim e a outros mais, à necessária mudança.
Lembro-me do filósofo de Delfos, que exortou a cada um o CONHECE-TE como ferramenta inequívoca de constatação do quanto há para modificar no ser imortal, que a tudo sobrevive e sobrexiste.

Amparo-me no galileu pescador, que nos mostrou que os seus discípulos seriam RE-CONHECIDOS por muito se amarem.

Inspiro-me, também, no doutor de Hipona, que interrogava a sua própria consciência, ao final de cada dia, para o CONHECIMENTO interior, de acertos e erros.
E, como advertência final, vou ao professor francês que aduziu que RE-CONHECE-SE o verdadeiro espírita por sua transformação moral e pelos esforços que faz em domar as suas más inclinações.

Penso que grande parte dos convivas planetários desta iniciante terceira década do terceiro milênio esteja bem ciente de que, como Sócrates, estarem se conhecendo intimamente. Porque o nosso agir não é tão mecânico ou instintivo e a inteligência nos mostra os limites na convivência interpessoal.

Só que o amor preconizado por Jesus, já que o seguimos, como discípulos, não é, como ele ensinou, incondicional e a todos, já que prosseguimos fazendo distinções entre os que são partidários das nossas ideias e os que, delas, se acham distantes.

Deixamos, portanto, de interrogar a nós mesmos, ao crepúsculo de cada volta do planeta sobre seu próprio eixo, sobre o que fizemos dos minutos de contato com os semelhantes, e a quantos ferimos com nossas palavras ou atitudes.

E, muito mais, esquecemos Kardec, nos dizendo espíritas “de carteirinha” e “de atuação” – estimativamente fraterna nas instituições e grupos – deixando de lado o cuidado para com as próprias imperfeições, na tentativa de superá-las.

As redes sociais, então, permanecem ora como trincheiras de batalha, ora como ringues de boxe, em que não ultimamos esforços para hastear uma paz possível e de reconstrução.

Mas o pós-pandemia virá e, então, os que sobreviverem destas lutas terão como palco o refazimento da Terra, enquanto ambiente físico e, mais que isso, como espaço convivial para todos, independente de suas ideologias ou “verdades”.

E o galo já cantou três vezes: RE-conhece-TE!


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+ Marcelo Henrique